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Os desafios de evidenciar e entender as mortes nas pequenas áreas

Pesquisa em 18 de dezembro de 2018
A vice-coordenadora do Cidacs, Maria Yury Ichihara, coordena um pesquisa que vai construir um índice de privação para o Brasil.

Durante dois dias pesquisadores em saúde pública do Brasil discutiram os desafios para compreender de forma quantitativa as razões que levam os brasileiros a óbito. Embora o falecimento impacte diretamente no território local, a compreensão desse fenômeno em geral é feita ao nível municipal, estadual e nacional. Nesse contexto, o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) realizou no auditório do Tecnocentro, no dia 17, de 9 às 16h, e na manhã do dia 18, das 9 às 12h, deste mês de dezembro, o seminário “Estatísticas de Mortalidade Para Pequenas Áreas”.

O evento propôs discutir metodologias para observar essas ocorrências ao nível das pequenas áreas, transpondo a análise por município. Neste encontro, a vice-coordenadora do Cidacs, Maria Yury Ichihara, trouxe a primeira sessão apresentando uma das iniciativas do centro de pesquisa: a elaboração de um índice de privação para o Brasil baseado na experiência e metodologia da Escócia. No entanto, serão considerados os aspectos próprios às condições de vida da população brasileira.

O índice deve servir para mensurar as iniquidades em saúde produzidas nos territórios e pode subsidiar políticas públicas que foquem na produção de equidade. Realizado em mais de cem países, a construção do índice de privação no Brasil se baseia em quatro aspectos das condições de vida: renda, condições de moradia, escolaridade e entorno. Um dos entraves para esta pesquisa é o modo de endereçamento das áreas rurais brasileiras, uma vez que muitas localidades possuem apenas um endereço para diversos domicílios.

O trabalho inspirou diversas discussões e ainda há muito para ser realizado. O estudo faz parte do projeto Social Policy and Health Inequalities (SPHI) elaborado em parceria com a Universidade de Glasgow. Para esta pesquisa, a observação é feita ao nível do setor censitário. O consultor do Cidacs, Daniel Skaba, disse que o setor censitário é um dos mais precisos em termos de geolocalização. Skaba tem ajudado ao Cidacs na construção de uma Infraestrutura de Dados Espaciais (IDE) que subsidiará diversas investigações.

O uso dessa unidade territorial, inclusive, foi questionado pela a pesquisadora do Instituto de Comunicação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e uma das convidadas do seminário, Célia Landmann questionou dado a heterogeneidade desse espaço. E para a pesquisadora quando se observa os fenômenos em pequenos contingentes populacionais é preciso muito cuidado para não cometer erros estatísticos.

Landmann trabalha com inquéritos do IBGE e também tem a oportunidade de realizar busca ativa de mortalidade. Durante a apresentação, uma realidade brasileira ainda permanente se apresentou: há pessoas ainda sendo enterradas em quintais, em terrenos irregular e essas informações não chegam aos sistemas de notificação. São as mortes invisibilizadas.

Um dos convidados do evento, o pesquisador sênior do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), Rômulo Paes, diz que a observação da mortalidade nas pequenas áreas deve ser feita porque é nas pequenas áreas que as pessoas vivem e é onde as políticas públicas devem ser aplicadas. “As pessoas adoecem e morrem no município por causas desiguais e é preciso entender isso”, comentou o médico e epidemiologista.

Nessa perspectiva de troca de experiência, a professora da Universidade de Brasília (UnB) e diretora de Estudos e Políticas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), Ana Maria Vasconcelos, desmitificou a ideia de que Brasília é ‘toda organizada’. Usando Google Earth, a gestora mostrou a formação de adensamentos urbanos que partiram do zero em 2000 para mais de 100 mil pessoas em 2010. São desafios como esses, de compreender como e onde viviam essas pessoas, quais necessidades possuem e como isso impacta na saúde pública que estudos de pequenas áreas podem beneficiar.

Um outro exemplo que a pesquisadora e gestora usa para ilustrar é situação da Ceilândia. Uma Região Administrativa da cidade satélite que registrou mudanças na distribuição da população em que o centro manteve as pessoas mais velhas e as “bordas” recebeu a população mais jovem, no início do ciclo de vida produtivo. “As demandas dos territórios são diferentes, é preciso gerir essas informações, projetar e fornecer subsídios para os profissionais. Em uma temos necessidade de atenção ao idoso e todas as suas questões, na outra temos a questão da violência juvenil e saúde da criança”, exemplificou. Para tais projeções foram utilizadas a malha territorial do IBGE, Imagens do Google e ferramentas de identificação. Para checar algumas situações, também foi feita a incursão em território.

Os pesquisadores Flávio Freire e Marcos Gonzaga, ambos do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), destacaram a importância da compreensão dos aspectos demográficos para áreas menores. Freire frisou a relevância dos estudos realizados em coorte longitudinais para compreensão de dinâmicas populacionais e que variedade e volume de dados beneficiam os estudos demográficos. Já para Gonzaga um dos desafios para a compreensão da mortalidade está também na qualidade dos dados dos registros de óbitos do Brasil.


Código Garbage

A pesquisadora Elisabeth França trouxe um problema que aparece em 30% dos registros de óbito no Brasil: o garbage code. Ou código garbage, como prefere França, que é professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (DPMS-UFMG). A apresentação de França destacou a importância do médico aponta a causa básica da morte para as pesquisas de saúde pública.

“No caso dos pacientes que morrem por agravo, por acidente, é importante que o médico use exatamente o código em que mostra se ele era o condutor, o pedestre, bem como no homicídio é preciso apontar o uso, por exemplo, da arma de fogo e não dizer que morte foi em decorrência de fratura no crânio e etc”, explicou França. (Em breve publicaremos entrevista completa com a médica e epidemiologista). (Veja a conversa mais detalhada do Nucom com a pesquisadora)

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