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Índices de baixo peso a nascer não acompanharam melhorias sociais

em 30 de agosto de 2018

Ila Falcão*

O conhecimento sobre os fatores de risco para o baixo peso ao nascer e prematuridade ainda conservam incertezas e geram importantes discussões no cenário científico. Apesar da considerável redução da desigualdade social, pobreza e extrema pobreza até o ano de 2013 no Brasil (1, 2), assim como da melhoria da atenção médica e da saúde da população brasileira, as taxas de baixo peso ao nascer e prematuridade, permaneceram constantes ou aumentaram. A importância da atenção e cuidado com o recém-nascido prematuro e/ou de baixo peso ao nascer deve-se ao fato de esses desfechos serem os principais fatores de risco para a mortalidade neonatal, infantil e de crianças menores de 5 anos de idade (3-6).

Uma recente publicação (6) relatou as tendências ao longo do tempo de partos prematuros e do baixo peso ao nascer, além de avaliar as desigualdades no peso ao nascer a partir de quatro coortes de nascimentos nos anos de 1982, 1993, 2004 e 2015, na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. Esta pesquisa revelou um considerável aumento dos partos prematuros e estabilidade da média do peso ao nascer e da prevalência do baixo peso ao nascer ao longo de 33 anos na cidade de Pelotas, apesar da favorável evolução de diversos fatores de risco do baixo peso ao nascer e da prematuridade. Como exemplo, destacam-se a redução da baixa renda familiar (renda inferior a um salário mínimo), da baixa escolaridade materna (menor que quatro anos de escolaridade), do fumo durante a gravidez, do baixo peso pré-gestacional (Índice de Massa Corporal abaixo de 18,5 kg/m²), da paridade, do número insuficiente de visitas ao serviço de pré-natal (menor que 4 consultas) e do curto intervalo entre os partos (menor que dois anos).

Os autores esperavam outro comportamento, diante destas mudanças, como a redução do baixo peso ao nascer e aumento do peso médio ao nascer. Uma possível explicação para os resultados encontrados neste estudo, se contra na hipótese de que as intervenções obstétricas, que aumentaram ao longo do tempo, principalmente entre as mulheres de alta renda, podem explicar por que os pesos de nascimento não aumentaram de acordo com a redução na prevalência de fatores de risco (6). Porém, não foi possível verificar esta hipótese pela dificuldade do estudo em diferenciar a realização da cesárea por indicação médica da cesárea eletiva nas quatro coortes e de avaliar as associações destas intervenções com o peso ao nascer.

1. Barros RPd, Carvalho Md, Franco S, Mendonça R. A Queda Recente da Desigualdade de Renda no Brasil. In: Barros RPd, Foguel MN, Ulyssea G, editors. Desigualdade de Renda no Brasil: uma análise da queda recente. 1. Brasília: IPEA; 2007. p. 107-27.
2. Jannuzzi PdM, Sousa MFd, Vaz ACN, Fonseca JCG, Barbosa MVS. Dimendionamento da extrema pobreza no Brasil: Aprimoramentos metodológicos e novas estimativas. In: Campello T, Falcão T, Costa PVd, editors. O Brasil sem miséria. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; 2014. p. 763-91.
3. Grady SC. Racial disparities in low birthweight and the contribution of residential segregation: a multilevel analysis. Social science & medicine (1982). 2006;63(12):3013-29.
4. Garcia-Munoz Rodrigo F, Diez Recinos AL, Garcia-Alix Perez A, Figueras Aloy J, Vento Torres M. Changes in perinatal care and outcomes in newborns at the limit of viability in Spain: the EPI-SEN Study. Neonatology. 2015;107(2):120-9.
5. Mercer BM. Periviable Birth and the Shifting Limit of Viability. Clinics in perinatology. 2017;44(2):283-6.
6. Silveira MF, Victora CG, Horta BL, da Silva BGC, Matijasevich A, Barros FC. Low birthweight and preterm birth: trends and inequalities in four population-based birth cohorts in Pelotas, Brazil, 1982–2015. International journal of epidemiology. 2018:dyy106-dyy.

*Ila Rocha Falcão possui graduação em Nutrição e mestrado em Saúde, Ambiente e Trabalho e estuda doutorado pela Escola de Nutrição, todos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). É doutoranda na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros em que desenvolve pesquisa sobre avaliação de impacto de intervenções públicas no peso ao nascer e prematuridade.

Pesquisador(es): Ila Rocha Falcão.

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