Serviços O conteúdo desse portal pode ser acessível em Libras usando o VLibras

Análise Radar: desigualdade e mortalidade infantil

Radar Cidacs Escrito por Poliana Rebouças  em 6 de julho de 2018

Mesmo nas regiões mais ricas do mundo, como a Europa Ocidental, onde os países dispõem de assistência médica universal e têm padrões similares de desenvolvimento econômico, a distribuição da mortalidade infantil pode ser desigual. Na Inglaterra, por exemplo, a taxa de mortalidade de menores de 5 anos alcança o dobro da encontrada na Suécia (4,9 e 2,7 por 1000 nascidos vivos, respectivamente). O país do Reino Unido é um dos mais desiguais da região em termos de distribuição de renda e apresenta maior prevalência de nascimentos prematuros e anomalias congênitas.

Partindo destas constatações, cientistas se debruçam na investigação do que estaria exercendo maior influência sobre esta diferença entre a mortalidade de crianças na Inglaterra e Suécia: se a presença de condições adversas no nascimento (como prematuridade, baixo peso ao nascer e anomalias congênitas) ou se fatores socioeconômicos que agem após o nascimento (medidos através de escores de privação na Inglaterra e quintis de renda domiciliar na Suécia).

Achados

Os resultados encontrados no estudo “Child mortality in England compared with Sweden: a birth cohort study” indicam que o excesso de mortalidade infantil na Inglaterra em comparação com a Suécia foi amplamente explicado pela distribuição de características de nascimento desfavoráveis. Para crianças que foram a óbito entre 2 a 27 dias de vida, 77% do excesso de risco de morte na Inglaterra foi explicado pelas características do nascimento e 3% por fatores socioeconômicos. Para as que morreram entre 28 e 364 dias, 68% do excesso de risco de morte foi explicado pelas características do nascimento e 11% por fatores socioeconômicos. Em crianças de 1 a 4 anos, os achados não tiveram significância estatística.

Assim, sabendo que as características do nascimento de uma criança estão associadas a características maternas, saúde e condições socioeconômicas antes e durante a gravidez, o estudo conclui que reduções na mortalidade infantil na Inglaterra em relação à Suécia poderiam ser alcançadas através de programas universais para melhorar a saúde das mulheres e reduzir as desigualdades antes e durante a gravidez. Com isso, se estaria contribuindo não apenas para redução da mortalidade infantil, mas também para prevenção de problemas de saúde mais graves e prevalentes ao longo da vida do adulto, como doenças crônicas.

O artigo tem pontos fortes, como a utilização de coortes de nascimento nacionalmente representativas, com características detalhadas de nascimento. Outro ponto é a vinculação desta coorte a todos os registros de admissão hospitalar e registros de óbito até os 4 anos completos de idade. Isso a torna ainda mais poderosa do ponto de vista de sua dimensão, em relação não só ao número de linhas do banco de dados, mas também ao número de colunas (variáveis) possíveis de serem trabalhadas, o que permite ampliar o alcance e a precisão dos resultados. Além disso, o fato de os dados serem individuados permite investigar associações para riscos menos prevalentes, aumentando ainda mais a potencialidade desta base de dados.

Potencialidades e limitações

A disponibilidade de dados sobre países com realidades similares é outro ponto forte para a realização da pesquisa, pois com isso foi possível criar um ambiente de comparação com um nível de controle interessante, evitando vieses e aumentando o poder do estudo.

Como limitações, os autores citam que foi necessária a exclusão de óbitos de menores de dois anos, que representam grande parte dos óbitos da Inglaterra, por problemas de consistência dos dados e diferenças em relação à classificação de óbitos de neonatos precoces entre os dois países. O uso de diferentes medidas para o status socioeconômico na Inglaterra (um indicador de nível de área) e na Suécia (um indicador individual de renda domiciliar) também é uma limitação importante, pois, possivelmente, se perde o poder de análise deste nível de determinação do processo saúde-doença. Por último, observa-se que o efeito de fatores socioeconômicos no excesso de mortalidade infantil na Inglaterra em relação à Suécia foi analisado independente das características do nascimento. Uma análise usando métodos de mediação causal entre esses fatores pode ser interessante para uma maior precisão do efeito dos fatores socioeconômicos sobre o desfecho.

Diante dos pontos citados, além dos achados da pesquisa, o artigo é de grande relevância para a área de estudo sobre saúde infantil e materna e seus determinantes, pois, mesmo sendo o tema em questão conhecido por ser já ser explorado na literatura há algumas décadas, o uso da vinculação de grandes bases de dados individuados é um diferencial ainda pouco experimentado neste campo, mas que se coloca como uma estratégia extremamente inovadora para a ciência em saúde como um todo, com grande potencial de permitir o alcance de resultados mais concisos e detalhados.

A partir destes resultados, pode-se pensar na possibilidade da implementação de decisões políticas mais precisas e eficientes, que venham a melhorar de fato as condições de saúde das populações. Contudo, há inúmeros desafios para a realização deste tipo de estudo, sobretudo no que diz respeito à necessidade de melhorias na qualidade das bases de dados dos países, que envolve implementação de recursos computacionais potentes e formação profissional adequada para lidar com este novo campo.

*Poliana Rebouças é sanitarista pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Mestre em Saúde Comunitária pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC/Ufba). Doutoranda no ISC/Ufba e pesquisadora no Cidacs/Fiocruz Bahia com o projeto “Efeito de determinantes sociais na mortalidade de menores de 5 anos”.

Referência

Zylbersztejn A, Gilbert R, Hjern A, et al. Child mortality in England compared with Sweden: a birth cohort study. Lancet 2018; 391: 2008–18

 

 

 

 

 

Pesquisador(es): Poliana Rebouças.

NewsletterNovidades Cidacs