Revisão sistemática indicou que o aumento das temperaturas e nutrição influencia indicadores nutricionais
O aumento das temperaturas pode ter vários efeitos além do desconforto térmico ou de doenças relacionadas ao calor. Um desses efeitos é o estado nutricional da população. Um estudo realizado por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) aponta que as temperaturas altas também podem influenciar indicadores como peso e crescimento, especialmente entre crianças pequenas.
A pesquisa, publicada como uma revisão sistemática no periódico PLOS ONE, reuniu evidências de diferentes estudos para investigar a associação entre altas temperaturas ambientais, ondas de calor e indicadores antropométricos, que são medidas usadas para avaliar o estado nutricional, como altura e peso em relação à idade.
Embora os efeitos das altas temperaturas na saúde já sejam reconhecidos, seu impacto na nutrição ainda é pouco explorado. O objetivo da análise foi fazer uma síntese do que a literatura científica já aponta sobre essa relação. Ao todo, foram incluídos 20 estudos, que somam dados de mais de 2,9 milhões de participantes.
A análise encontrou uma redução média nos índices de peso para altura e de altura para idade a cada aumento de 1 °C na temperatura. As mudanças podem parecer pequenas em nível individual, mas os autores destacam que, em escala populacional, o impacto pode ser significativo. Isso ocorre porque mesmo pequenas alterações na distribuição desses indicadores podem aumentar o número de crianças com baixa estatura ou emagrecimento agudo.
Essa relação envolve múltiplos mecanismos. O aumento da temperatura pode comprometer a produção agrícola, reduzir a disponibilidade de alimentos, além de agravar problemas de saneamento e ampliar a transmissão de doenças infecciosas. O estresse térmico também pode causar perda de apetite, pior absorção de nutrientes, diarreia e desidratação, fatores que contribuem para a perda de peso.
Esses processos costumam a afetar mais ainda os países de baixa e média renda, onde as populações estão mais expostas a temperaturas elevadas, possuem menor capacidade de adaptação e dependem mais diretamente das condições ambientais.
O estudo também aponta que enfrentar os efeitos do calor sobre a nutrição passa por integrar políticas de saúde, alimentação e adaptação climática. Isso inclui desde o fortalecimento da vigilância nutricional até à ampliação de programas sociais e o acesso a alimentos saudáveis, especialmente para grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos.
Pesquisador(es): Priscila Ribas de Farias Costa, Rita de Cássia Ribeiro Silva, Rafaela de Oliveira Santos, Karine Brito Beck da Silva, Ellayne Souza Cerqueira, Aline dos Santos Rocha, Lisianne Passos Luz, Laís Helena Ribeiro, Otavio T. Ranzani, Ismael da Silveira, Maxine Pepper, Enny Paixão, Mauricio Barreto.
