Com poesia, música e humor, pesquisadores apresentaram suas pesquisas em performances curtas e autorais
A 7ª edição do Science Slam começou por volta das 9h40 do dia 11 de dezembro e rapidamente mostrou que seria um evento fora da rotina. O dia foi marcado por uma espécie de “se vira nos 30”. Ou, mais precisamente, “se vire nos três minutos”, marcados por emoção e criatividade. Foi esse o tempo que pesquisadores e integrantes de núcleos do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) tiveram para explicar, ao vivo, as suas pesquisas e o que fazem no dia a dia, diante de uma plateia atenta e jurados técnicos externos.
O tema deste ano foi “Quem sabe faz ao vivo!”, ou seja, sem vídeos editados ou material previamente gravados sendo componentes essenciais da performance. Apenas o participante, seu conteúdo e os três minutos. Os recursos permitidos foram simples e autorais: imagens, objetos, cenários, figurinos, pequenos efeitos sonoros que serviriam apenas como contexto para o conteúdo principal. As entregas aconteceram num formato livre e, como proposto, o festival provou que ciência também sabe brincar com seus próprios desafios.
A banca do júri foi especial, composta pelo estudante do 3º ano e músico clarinetista do NEOJIBA, Saíde Gustavo dos Santos; a bióloga, pesquisadora da Fiocruz Bahia e coordenadora do Festival Pint of Science Salvador, Valéria Borges; a atriz e criadora de conteúdo, Bruna Seli e a jornalista experiente em assessoria parlamentar, Ana Raquel Barreto.
Com o desafio em mente, os participantes se propuseram a declamar poesias, esquetes teatrais que arrancaram gargalhadas da plateia, cordéis emocionantes e humorados, fantoches e música autoral. Até atuação digna de vídeo de Youtube esteve presente entre os quase 40 trabalhos apresentados durante todo o dia, distribuídos numa programação extensa e híbrida.
“É o sétimo ano do Science Slam e vocês sempre se superam. Eu acho que a gente tem aí uma amostra não só do trabalho de vocês, da criatividade, mas de um espírito mesmo de comunidade, é um momento de a gente celebrar”, enfatizou Bethânia Almeida, vice-coordenadora do Cidacs.
A comandante do Science Slam 2025 foi a emoção, e sua principal seguidora foi a pesquisadora Viviane de Jesus, com o tema “Muito (Des)cuidado com a variável raça”. Ela mostrou ao público uma performance tocante sobre a importância de se avaliar o racismo ao se fazer pesquisa, tudo isso em formato de poesia. Com a conquista do júri, ficou em primeiro lugar na categoria pesquisa.

A apresentação poética de Viviane captou o público
“O objetivo da minha apresentação foi sensibilizar os pesquisadores e pesquisadoras de que trabalhar com a variável raça apresentando apenas números é só reforçar um racismo científico que historicamente tem colocado pessoas racializadas nas periferias”, Viviane frisou, em seu discurso.
Ela também agradeceu ao público que a incentivou durante a apresentação. “Vocês também participaram da minha apresentação expressando emoções e eu pude ver isso em cada rosto que eu olhava. Isso me motivava a contracenar ainda melhor”, pontuou.
Já o segundo lugar da categoria ficou por conta de Paulo Victor Maciel, que trouxe um cordel emocionante sobre a valorização do semiárido, contando uma parte da sua história de vida, entrelaçando com a importância das cisternas.
O terceiro lugar da pesquisa foi ocupado pela apresentação musical e autoral de Carlos José Cardoso, que com um violão, seu vocal e as palmas do público, explicou sobre a invisibilidade de nomes comuns.
Brincando com a originalidade e humor, na categoria Integrante de Núcleo, o primeiro lugar foi conquistado por Caíque Menezes e Marianne Lage, que trouxeram o “Cidacs no Multiverso Baiano”, uma esquete original e com improvisos sobre como o Núcleo de Operações recepciona e administra a chegada dos pesquisadores ao Cidacs.
Já o segundo lugar foi alcançado por Luiz Conrado e Diego Ramos, do Núcleo de Curadoria de Dados, com uma peça que se passava em uma sala de aula onde eles, como professores, explicaram sobre como funciona o anonimato, desidentificação e privacidade individual nas bases de dados. Enquanto isso, o terceiro lugar ficou com Ingrid Alves, com a apresentação “Por trás dos bastidores”, que através de um cordel relatou os sufocos de quem organiza eventos do Cidacs.
Os fantoches de Camila Barreto encantaram os jurados com sua apresentação sobre “Efeitos do Bolsa Família e Internação Psiquiátrica” e lhe proporcionaram ser a menção honrosa da edição.
Durante a premiação, o júri revelou que o processo de decisão foi desesperador, já que muitas apresentações se destacaram. “Foi um dia inteiro maravilhoso. Tivemos a ciência cidadã traduzida em criatividade, cada um melhor que o outro. Vimos pesquisadores e núcleos, todos os cantos do Cidacs, valorizados”, destacou a jurada Valéria Borges.
Nova liderança na pesquisa e entrega de títulos
O embalo celebrativo do Science Slam também foi o espaço onde ocorreu a cerimônia da passagem de bastão da liderança da pesquisa de Viviane de Jesus para Samuel Araújo Gomes da Silva. Em seu discurso, Viviane contou que esteve no cargo desde abril de 2024 e que essa responsabilidade foi essencial no seu processo de chegada ao Cidacs.
“Foi uma experiência muito boa. Eu cresci muito como pessoa, como pesquisadora, como ser humano também. Quero agradecer aos pesquisadores que me receberam de uma forma maravilhosa. Eu nem sabia como funcionava o Cidacs, as siglas, e eu fui acolhida pelos pesquisadores”, enfatizou.

Na prática, a transição da liderança tem sido gradual
No momento, pouco antes das entregas oficiais dos troféus aos vencedores do Science Slam, o coordenador crientífico e cocriador do Cidacs, Mauricio Barreto, deu as boas-vindas ao novo líder. “Ele vai trazer todo o passado dela, vai ter o compromisso e experiência de Viviane e há uma grande expectativa de que consiga manter e transferir esse espírito para a comunidade”, felicitou.
Após a entrega da placa de representação da pesquisa para Samuel e da entrega dos prêmios aos vencedores do Science Slam, a última homenageada foi a pesquisadora Mio Kushibuchi. Japonesa e apaixonada pelo Brasil e pela capoeira, Mio veio ao país para se dedicar à pesquisa em saúde. Durante o Science Slam, recebeu seu selo honorário de cidadã baiana, recebendo aplausos e gratificações dos colegas de pesquisa.
Ciência acessível como missão
O Festival de Divulgação Científica foi criado para renovar as antigas apresentações anuais de resultados dos bolsistas e já virou uma tradição dentro do Centro. A missão é clara: comunicar ciência de um jeito acessível, direto e alinhado ao compromisso do Cidacs de apoiar decisões que beneficiem a sociedade.
Nesta edição, os participantes que alcançaram o primeiro lugar tanto na categoria de pesquisa quanto categoria de núcleo ganharam uma viagem para qualquer instituição acadêmica ou profissional do seu próprio interesse dentro do território brasileiro. Já os segundos e terceiros lugares receberam uma bolsa térmica personalizada do Cidacs de 16 litros.

Ao fim, todos tinham sensação de dever cumprido
“A gente sempre sai com a sensação de que aquele foi o melhor do que a gente já viu em todas as edições e hoje também saímos com essa sensação. Parece que foi a melhor coisa que nós já vimos de todo mundo. Foi muito bonito”, celebrou Pablo Ramos, coordenador do Cidacs.
Para Bethânia, a expectativa só cresce para o próximo ano. “Ano que vem são 10 anos do Cidacs. Vai ser um marco e eu acho que nós temos muitos caminhos pela frente. Só tenho a agradecer em fazer parte dessa comunidade”, comemorou.
Confira a lista de vencedores desta edição
Categoria Núcleo:
1º lugar: Caíque Menezes e Marianne Lage, com o tema “Cidacs no Multiverso Baiano”.
2º lugar: Luiz Conrado e Diego Ramos, do Núcleo de Curadoria de Dados, com o tema “Anonimato, desidentificação e privacidade individual”.
3º lugar: Ingrid Alves, com o tema “Por trás dos bastidores”.
Categoria Pesquisa:
1º lugar: Viviane de Jesus, com o tema “Muito (Des)cuidado com a variável raça”.
2º lugar: Paulo Victor Maciel, com o tema “Valorização do semiárido”.
3º lugar: Carlos José Cardoso,com o tema “Invisibilidade de nomes comuns”.
Menção honrosa: Camila Barreto, com o tema “Efeitos do Bolsa Família e Internação Psiquiátrica”.
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