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Tirania do urgente: quais serviços são considerados essenciais em contextos de crise?

em 28 de novembro de 2022
Emanuelle Goes na mesa do Abrascão | Imagem: Diego Matos/NCD

Mesa do Abrascão discute inequidades e impactos desiguais da pandemia de Covid-19

Por Clarissa Viana

“As mulheres são as mais impactadas quando a gente vivencia crises diversas, seja ela política, econômica, sanitária; vivenciam retrocessos na agenda de direitos, e foi isso que a gente vivenciou nesse país”. Foi com essa reflexão que a pesquisadora associada do Cidacs, Emanuelle Góes, iniciou sua participação em mesa redonda do último dia do Abrascão. Ela fez uma análise sobre os efeitos da pandemia, que evidenciou e agudizou as inequidades sociais, de gênero e de raça.

Emanuelle utilizou o conceito de tirania do urgente para explicar o processo de retirada de direitos das mulheres, sobretudo pretas, em contextos de crise. “A tirania do urgente é um conceito que cabe em situações como essa: há uma negação ou um retrocesso na agenda de direitos humanos, sobretudo, nos direitos baseados em gênero e raça. A gente viveu isso de forma muito nítida com a redução dos serviços de saúde sexual e reprodutiva”, afirmou.

Segundo ela, a tirania do urgente impacta na definição dos serviços considerados essenciais e, no caso da pandemia de Covid-19, dificultou o acesso a serviços como pré-natal adequado e a métodos contraceptivos. “Houve um remanejamento para a telemedicina, mas quais mulheres teriam acesso?”, questionou.

As consequências desses retrocessos estão registradas nos índices de morte materna no país, os mais altos do mundo. Segundo pesquisa liderada por Emanuelle Góes, em conjunto com Andrêa Ferreira e Dandara Ramos, a chance de óbito materno foi maior entre pretas e pardas.

Segundo o artigo publicado na Revista Ciência & Saúde Coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a partir das notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), registradas nos anos de 2021 e 2022, foram 1.308 óbitos entre gestantes e puérperas, sendo a letalidade superior entre as gestantes pretas (17,9%), seguidas pelas pardas (15,1%).

Um vírus, duas guerras

O dia 25 de novembro marca o início dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, uma campanha anual e internacional que começa no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. O problema da violência contra as mulheres também ganhou destaque na mesa sobre a crise sanitária.

 “Serviços foram fechados, não houve rede de apoio, e as mulheres e meninas estavam lá, presas com esses homens violentos; isso aconteceu em diversas partes do mundo”, destacou Emanuelle Goes, defendendo que a questão fosse tratada como uma segunda pandemia.

Segundo a pesquisadora, no caso da violência sexual, houve uma queda nas notificações no SINAN – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, pela suspensão do atendimento presencial e pelo medo da busca pelo serviço para se evitar a infecção. Emanuelle também lembrou do caso da menina de 11 anos do Espírito Santo, que precisou se deslocar para outra cidade para conseguir acessar o serviço de aborto legal.

 

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