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Transformações digitais: especialistas dialogam como área da saúde é impactada

em 5 de setembro de 2022
Fonte: ABRH MG

O relacionamento da sociedade com a tecnologia vem passando por inúmeras transformações. Potencializada pela pandemia, a mudança cultural e a forma de lidar com o meio digital alterou diversos processos ao redor do globo. Professores passaram a ministrar aulas virtualmente, consultas médicas passaram a ser realizadas online e diversos procedimentos passaram a ser executados de forma virtual. Diante dessa realidade, surge uma questão de interesse público: como fica a área da saúde diante de todas essas transformações digitais? Essa questão levou a Fiocruz a lançar um novo curso de especialização voltado para Transformações Digitais em Saúde.

“Cabe a nós como profissionais deste campo refletir sobre o tema. Porque toda vez que chegam novas tecnologias, parece que aquilo vai transformar tudo e nem sempre isso acontece, por isso temos que pensar criticamente sobre essas tecnologias e aproveitar o que elas têm de melhor”, disse Mauricio Barreto, que fez parte da aula inaugural da especialização. Ele é coordenador do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), cujos profissionais ministrarão diversas aulas ao longo do curso para compartilhar a expertise acumulada no Centro.

De forma geral, a própria ideia de transformação em si tem como objetivo trazer uma profunda mudança na forma como as atividades são feitas. E, para Wagner Martins, pesquisador da Fiocruz Brasília e idealizador da nova pós-graduação, no que diz respeito a transformações digitais, em termos de organizações, elas são vistas como uma forma de alavancar mudanças e trazer oportunidades. “Esse processo é feito ao utilizarmos dessa capacidade de integração de tecnologias digitais de diversas naturezas, que possibilitam a aceleração do impacto sobre a sociedade de forma geral, na cultura, economia e na forma de se relacionar”.

O pesquisador traz exemplos de como alguns processos tecnológicos se dão na atualidade. “A quantidade de reuniões virtuais que realizamos hoje em dia, já é uma demonstração prática de como essas transformações vieram para alterar nossa realidade. Nossa também cultura mudou. A forma como descobrimos maneiras de aprimorar nosso relacionamento foi se ampliando aos poucos, e junto com ela, também foi se transformando a forma como inserimos essas transformações digitais no contexto da saúde”.

Migrando para o campo virtual

Neste cenário, é possível observar, por exemplo, como professores da área de saúde, assim como das demais áreas, passaram a ministrar aulas online, bem como diversas conferências e reuniões técnicas em saúde também passaram a utilizar ferramentas tecnológicas para serem realizadas. Consultas médicas, que passaram a ocorrer no mundo virtual, também é um bom exemplo que ajuda a ilustrar esse cenário. Somando esses fatores à realidade em que a população está cada vez mais inserida no meio digital, Wagner afirma que esses são exemplos concretos de como o teletrabalho e as atividades no mundo virtual estão em constante crescimento.

Com essas mudanças, surge a necessidade de entender: de que forma essas transformações alteram a realidade em relação ao modelo organizacional da sociedade? Segundo Wagner, tudo indica que a população vai ser afetada por um impacto significativo, criando novas situações e modelos de negócio, que irão influenciar na forma como as pessoas atuam no mundo. Ele explica que essas mudanças precisarão ser acompanhadas também de modificações na regulação.

“Estamos falando de transformações profundas e isso exige uma grande movimentação das leis e regulamentações atuais, por exemplo, no que diz respeito ao atendimento médico, que hoje em dia já se dá por meio das tecnologias digitais. Também será preciso abordar a regulação do processo de ensino-aprendizagem, e muitos outros pontos dentro da saúde, que acompanham a evolução de transformações que também ocorrem fora dela, como foi o caso da regulação do mercado de transporte individual, proveniente da mudança na forma como as pessoas utilizavam transportes, que ocasionou no conflito entre taxistas e motoristas de aplicativo”, disse Wagner, ilustrando como a saúde não é a única área a sofrer com o impacto das transformações digitais.

LGPD na saúde                                                                                                                 

Dessa forma, fica claro como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), nº 13.709/2018, que regula as atividades de tratamento de dados pessoais, assume um importante papel no Brasil, para atender as novas demandas diante das transformações digitais. Neste cenário, inclusive, o Cidacs dialoga constantemente sobre a execução desta lei e a sua aplicação na área científica, visto que seria este um importante ponto da LGPD para as transformações na saúde.

Outra questão importante dentro deste tema, é como transformações digitais vêm afetando o uso de dados pessoais administrativos, coletados pelas instituições públicas para gestão governamental, a exemplo do Cadastro Único, utilizado para registro em programas sociais. A pesquisadora do Cidacs, Bethânia Almeida, que também irá ministrar aulas na especialização, explica que essas mudanças ampliaram as possibilidades de utilização de dados administrativos para diversas finalidades, dentre as quais destacam-se para geração de conhecimento científico e de evidências para políticas públicas.

“Muitos países, notadamente a Austrália, Canadá e Reino Unido passaram a utilizar dados administrativos como ativo de desenvolvimento científico e social para responder perguntas e buscar soluções para problemas considerados de interesse público. É nesta perspectiva que utilizamos dados administrativos integrados para subsidiar pesquisas em saúde pública no Cidacs”, declarou.

A participação da pesquisadora Bethânia na especialização será focada em apresentar e discutir o uso de dados administrativos para pesquisa e estudos em saúde pública na LGPD e da governança de dados no Cidacs, em termos do que é feito e do que se pretende fazer a partir da emergência de um novo campo de conhecimento chamado de Ciência de Dados Populacionais (Population Data Science).

Dados administrativos versus dados de saúde

Bethânia também traz que é importante ter em mente que os dados relativos à saúde não se restringem aos obtidos na assistência à saúde ou em pesquisas biomédicas, tendo em vista que outros tipos de dados, como ambientais, sociais e comportamentais por exemplo, também se relacionam à saúde. Existe, portanto, um potencial imenso para entender interdependências entre diferentes aspectos na saúde de indivíduos, grupos e, mesmo, de populações inteiras.

Nesse sentido, a estatística e líder do Núcleo de Produção de Dados (NPD) do Cidacs, Samila Oliveira, que também marcará presença na especialização, afirma que o maior desafio é o de transformar dados administrativos, que foram criados para outros propósitos, em um dado que possa ser usado na pesquisa, incluindo a pesquisa em saúde. “Em outras palavras, as bases de dados administrativas precisam ser transformadas em dados consistentes e que possam dar suporte à pesquisa científica, ajudando a responder diferentes questões na área da saúde. Para isso, é necessário buscar metodologias e tecnologias capazes de contribuir para a manipulação e o tratamento dessas informações”.

E é por isso que, segundo Samila, o pré-processamento e a vinculação dos dados são etapas importantes e desafiadoras, mas que representam uma tendência no contexto das transformações digitais. “Esse cenário pode estar relacionado a grandes volumes de dados, como na frequente coleta de informações realizada na área de saúde. Isso requer uso de ferramentas e infraestrutura adequadas para produção de conhecimento, o que posiciona o Cidacs como um ambiente que conduz estudos e pesquisas baseados em projetos multidisciplinares, por meio de integração de grandes bases de dados e fornece uma infraestrutura computacional para desenvolvimento de modelos de pré-processamento e vinculação dessas bases de dados”.

Maíra Souza, que também integra a grade do curso de especialização e é a líder do setor que cuida da curadoria dos dados no Cidacs comenta o fato de a população estar vivendo no cenário em que a produção, coleta e consumo de dados de diferentes tipologias e origens projetam-se tanto em iniciativas científicas, particulares, comerciais, quanto em iniciativas governamentais. “Se de um lado os dados clínicos e/ou genômicos destacam-se em importância e uso para obter uma abordagem ampliada da saúde do indivíduo, no outro há a perspectiva da pesquisa populacional cujo objetivo não é identificar o indivíduo ou grupos, mas encontrar padrões ou associações e estatísticas sobre grupos de pessoas, emanadas do conjunto de dados analisados”.

Ou seja, a potencialidade do uso desses dados é grande, visto que dados administrativos têm se mostrado com grande potencial para pesquisas a respeito da população, com vistas tanto para geração de conhecimento científico, quanto para a produção de evidências para subsidiar políticas públicas e a prestação de serviços. No entanto, conforme Maíra, essa questão traz um grande desafio que se relaciona aos aspectos éticos, técnicos e sociais sobre como delimitar e garantir a veracidade destes dados e seus produtos, e em como reforçar a confiança pública sobre o que está sendo produzido.

Legislação no mundo virtual

Além de sensibilizar os profissionais de saúde para essas transformações virtuais, é necessário estabelecer estruturas de governança para essas novas estratégias. Em 21 de março de 2018, foi instituído o Sistema Nacional de Transformação Digital, que estabelece uma nova estrutura para esses processos digitais. Atualmente, o Congresso também discute um projeto de lei para regulamentar a telessaúde, que é a PL 4223. De acordo com Wagner Martins, a pandemia de Covid-19, por ser um evento de contexto mundial, antecipou algumas tecnologias que talvez só viriam daqui a algum tempo, e perante a urgência de a sociedade dar continuidade a alguns processos, ela acabou acelerando a população a utilizar mais dessas tecnologias.

“Quando falamos em saúde, estamos falando em uma das áreas mais conservadoras em termos de trabalho. Mas, esta foi uma das áreas justamente mais impactadas pelas transformações digitais. Vale ressaltar o esforço dos conselhos profissionais em saúde, para permitir que o trabalho continuasse e a sociedade fosse assistida por esses serviços. Em breve, teremos uma regulação sobre esse assunto, mas, por agora, precisamos continuar a aprofundar a discussão sobre a criação de comitês de ética de incorporação tecnológica”.

Outro ponto destacado pelo pesquisador são as novas tecnologias que estão no mundo digital, principalmente a Inteligência Artificial aplicada a saúde. E que mesmo diante de todos os benefícios que possa trazer, também é necessário que haja um debate aprofundado. Por ser baseada em algum algoritmo que está sujeito a reproduzir o viés de discriminação e preconceito do desenvolvedor, seria necessário que houvesse uma análise da ética dessas tecnologias. E Wagner é categórico ao afirmar que também a ética em saúde é um dos temas que deverá ser aprofundado.

“São muitas as mudanças que virão pela frente. Passando pelo uso intensivo de dados, que coloca em risco a privacidade das pessoas e que as torna vulneráveis. Estamos na era da incerteza, com oportunidades e ameaças, e, portanto, é necessário fazer com que a humanidade consiga entender esse processo e participar dele de forma mais proativa, pois ela possui o direito de entender o que está acontecendo”, declarou.

Para Bethânia Almeida, as tecnologias da informação e comunicação ampliaram exponencialmente a circulação de dados em um mundo cada vez mais conectado e digitalizado, dados que poderão ser coletados, compartilhados, correlacionados e interpretados com diferentes propósitos. Dentre estes dados estão os chamados dados pessoais, considerados de natureza especial porque poderão identificar direta ou indiretamente uma pessoa e fornecer informações sobre diversos aspectos de suas vidas, colocando em risco a sua privacidade e outros direitos.

Nesse contexto, ela ressalta a importância da LGPD no meio virtual. “Ao considerar que o volume e variedade de dados em circulação ampliaram as chances de identificação das pessoas as quais os dados se referem, a LGPD visa regulamentar o uso de dados pessoais no Brasil e prevenir abusos, pois se aplica a qualquer operação de tratamento de dados pessoais realizada por pessoa física ou por pessoa jurídica de direito público ou privado no território nacional, inclusive nos meios digitais”. Além disso, segundo ela, a população precisa ser adequadamente informada sobre seus direitos amparados pela LGPD, que inclui o direito de acesso facilitado às informações sobre qualquer tratamento pelos quais seus dados pessoais sejam submetidos.

Ao abordar este tema, é necessário pensar em como os profissionais, que estão no cotidiano da produção da saúde em todas as áreas, devem ser colocados no centro da discussão. Para Wagner, não se trata só de inserção de tecnologia no cuidado clínico, mas também na inclusão dos profissionais que estão na área administrativa e que precisam pensar digitalmente para saber como mudar seus processos de trabalho e como executar uma determinada tarefa no mundo digital.

“Estamos falando de dados financeiros que podem ser articulados por produção de serviço, dados de logística e epidemiológicos, e dados biológicos que podem ser utilizados para fazer mapas de caracterização epidemiológica. Temos um grande desafio pela frente de fazer essa transição com um menor grau de prejuízo social e econômico para a população”.

Sensibilização para as transformações digitais

Ao ser questionado sobre como ele prevê o futuro da saúde, Wagner afirma que transformações geram mais transformações. “Teremos uma conexão maior entre as pessoas no mundo físico e as pessoas no mundo digital. Dentro dessas possibilidades, poderemos ter, nos próximos 5 anos, todas as nossas atividades, ou parte delas, acontecendo no mundo digital. E isso vai fazer com que a gente tenha, portanto, uma nova cultura sendo agregada a cultura humana. Alguns chamam isso de transhumanismo”.

Na busca para tentar sensibilizar a população diante das transformações, a Fiocruz lançou um curso de especialização em Transformações Digitais em Saúde. Segundo Wagner, ele é voltado não só para transferência de conhecimento, mas para o desenvolvimento do conhecimento. No futuro, a aprendizagem vai ser cada vez mais autônoma, e o aluno vai ter que buscar uma tutoria.

“Tentamos o máximo possível captar profissionais de diversas áreas. Quando se fala de tecnologia digital está sempre se falando do programador e do cientista computacional, mas a ciência digital envolve todas as pessoas de forma geral, pois são elas que irão atuar no cotidiano. Precisamos dar maior abrangência na captação de pessoas para este curso, e trazer para além dos médicos, o enfermeiro, os técnicos de enfermagem, farmacêuticos, jornalistas e uma multiplicidade de olhares”, contextualizou.

A especialização da Fiocruz

A especialização irá utilizar das tecnologias disponíveis para que o curso seja desenvolvido no ambiente digital, ainda que, em algum momento, haja a possibilidade do presencial. No total, foram disponibilizadas 60 vagas, distribuídas entre vagas específicas para o Ministério da Saúde, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal e também para ampla concorrência. Wagner também adianta que está sendo discutida a possibilidade de alguns alunos seguirem para o mestrado, após a conclusão da especialização.

Tendo iniciando em agosto de 2022 e com duração prevista até novembro de 2023, a proposta é que o curso tenha bastante prática e que os grupos sejam orientados para que identifiquem problemas em seus órgãos e proponham soluções como trabalho de conclusão de curso. A partir disso, poderiam surgir novas conexões de bancos de dados, novos softwares, novos bancos de dados, entre outras infinitas possibilidades.

Na grade curricular, serão abordados temas como os princípios do SUS, a saúde como aspecto econômico e social, a governança e a gestão nas estratégias da saúde digital, saúde 4.0, inovações tecnológicas, LGPD e dados abertos, ética, entre outros. “Na terceira onda da internet, com o metaverso, estamos buscando outras formas de nos inserirmos nesse mundo digital, e incluir a saúde nisso. Pretendemos organizar, inclusive, uma aula no metaverso neste curso novo da Fiocruz. No mundo digital, temos condições de presencial, experiência e acesso remoto a várias possibilidades de aprendizagem”.

 

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