Serviços   O conteúdo desse portal pode ser acessível em Libras usando o VLibras

Pesquisadores da Rede CoVida apresentam “onde estamos na pandemia”

Coronavírus em 5 de agosto de 2022

“A pandemia é extremamente complexa. A cada momento achamos que ela vai acabar e que podemos relaxar. Aí chegam outras condições e contextos, que nos levam ao trabalho de procurar novas soluções e tentar tomar as medidas de saúde pública adequadas”, disse a vice-coordenadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), Maria Yury Ichihara, na tarde desta quinta-feira (4), durante o sexto encontro da Rede CoVida, para discutir sobre o momento atual da pandemia. Em busca de dialogar sobre a pergunta “Onde estamos na pandemia?”, um grupo de pesquisadores se reuniu para debaterem o tema e tirarem dúvidas por parte da população.

Maria Yury, que apresentou o panorama da Covid-19 no país, afirmou que existem quatro ondas que exemplificam o padrão epidemiológico da doença. “A primeira onda teve início ainda em 2020, a outra no primeiro semestre de 2021, e em 2022 existem duas ondas bastante intensas em sua incidência, mas que acabaram arrefecidas por conta da vacinação. No entanto, o patamar de incidência na quarta onda apontou um aumento possível de chegar ao patamar das anteriores”, disse, enquanto apresentava o panorama em gráficos e números.

Ela também destaca que houve uma mortalidade muito maior na segunda onda e que esse padrão trouxe muita preocupação para todos na época, mas que a chegada da vacina conseguiu diminuir a letalidade da Covid-19 na terceira e quarta onda. Apesar disso, os números indicam uma preocupação quanto a gravidade ocasionada pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que acompanhou o padrão de quatro ondas, com maior incidência nas duas primeiras e diminuição na terceira e quarta ondas.

A ameaça da Síndrome Respiratória Aguda Grave

“A SRAG possui maior incidência em extremos de faixa etária, tanto no público mais jovem, de 0 a 4 anos, como em idosos com 80 anos ou mais. Esse aspecto é possível relacionar com o fato de que nas primeiras ondas, muitas pessoas acreditavam que a letalidade em crianças não era tão grande, e nessas informações a gente consegue ver como a SRAG as atingiu de maneira intensa”, demonstrou Maria Yury.

A apresentação seguiu abordando como a transmissão, devido a mudanças genéticas, pode sofrer alterações. “Após a curva das variantes Alfa, Beta e Gama, podemos dizer que estamos na curva da Omicron, com suas respectivas variantes. Nesse padrão brasileiro, podemos procurar pelas regiões e verificar que o padrão para a região Norte e Nordeste são similares com a onda da Omicron, quando ela chegou em 2022. Já no Centro-Oeste e no Sul, a incidência da Omicron é extremamente intensa, enquanto o Sudeste houve um padrão intermediário entre essas regiões”.

Sobre a mortalidade, foi apresentado que no Norte do país não há um aumento considerável de mortalidade, mas no Nordeste há, bem como nas demais regiões”. Vale ressaltar que esses dados dependem da testagem e notificação, que agora, muitas delas estão sendo feitas em casa, através do auto-teste e não são comunicadas nas bases de dados em saúde, então essa pode não ser a situação real da pandemia”, ressaltou Yury.

Panorama entre diferentes estados e cidades

A pesquisadora apresentou o panorama dividido por regiões, estados e cidades e comparou o cenário entre elas. No caso da Bahia, por exemplo, o estado segue o padrão geral do Nordeste, mas possui uma maior incidência, comparado com Sergipe e Pernambuco.

Em Salvador, há o mesmo padrão em relação as outras capitais nordestinas, com Aracaju, Fortaleza e João Pessoa com a incidência maior que a cidade soteropolitana. Além disso, apesar de haver na Bahia uma maior taxa de incidência, a taxa de mortalidade é bem menos intensa.

Em relação à vacinação, os índices demonstram que em crianças, tanto da primeira quanto da segunda dose, os índices estão bastante insuficientes, e também nas faixas etárias de 10 a 19 e 20 a 29, que também necessitam de incremento. Assim como a dose de reforço até os 49 anos de idade, que precisa ser intensificada, pois estão abaixo da meta de 75%.

A pesquisadora e professora comentou uma frase muito perguntada pela população: “A pandemia veio para ficar? Essa é uma questão que a gente sempre coloca, mas a população já considera que a pandemia acabou, com as pessoas parando de usar máscaras, com shows e eventos acontecendo por todo lugar, população viajando, tudo isso simultaneamente ao aumento de casos e internações, e com óbitos principalmente nas faixas etárias extremas”.

Pontos importantes para os próximos tempos

De acordo com a pesquisadora, é necessário chamar atenção para a vigilância genômica e acompanhar as variantes atuais de acordo com sua transmissibilidade e patogenicidade, além de continuar a acompanhar a incidência, de acordo com faixa etária e intensificar a vacinação principalmente em crianças e adolescentes.

“A pandemia de Covid-19 envolve uma rede complexa de determinação social, econômica e cultura, e esse padrão epidemiológico precisa ser analisado, com um olhar particular para cada cidade, estados e grupos vulneráveis. A mortalidade ainda é maior em idosos, necessitando que as medidas de proteção como distanciamento social, mesmo nos vacinados, seja enfatizado para essa população. As medidas de monitoramento de casos precisam continuar sendo realizadas e articuladas com a vigilância e atenção primária. Há necessidade especial para vacinação em crianças e adolescentes, pelo aumento da incidência e da SRAG, e também é preciso planejar atenção aos indivíduos que sobrevivem a doença e que podem trazer complicações com risco aumentado de morte prematura”, concluiu Maria Yury.

O coordenador do Cidacs, Mauricio Barreto, que esteve à frente na mediação do evento, trouxe a reflexão de como o vírus se comporta, e ressaltando que algumas infecções são mais previsíveis, devido ao vírus ser mais estável e isso permite que, através dos modelos e a capacidade de prever dos epidemiologistas, as ações possam ser melhores definidas. “Mas no caso da Covid-19, ela tem nos surpreendidos, principalmente no que diz respeito as variantes que surgem. E é sobre esse tema que o próximo convidado deste evento tem a explicar”, destacou Mauricio.

O impacto das diferentes variantes

Dando seguimento ao debate, o imunologista da Fiocruz Bahia, Ricardo Khouri, fez uma apresentação focada mais nos aspectos das variantes da Covid-19. Ele começou relembrando como os primeiros casos da doença foram detectados nos “mercados molhados” de Wuhan, na China, onde o vírus passou de animais, que estavam nas gaiolas, diretamente para os seres humanos. Segundo ele, a probabilidade é que tenha havido diversas transmissões para diversos humanos ali no mercado. E, a partir deste momento, já começaram a surgir diferentes linhagens.

Até fevereiro de 2020 o vírus apresentava uma característica molecular predominante, e conforme as mutações, ela ganhou uma capacidade maior de se replicar e de transmissão, em relação a linhagem anterior. “Foi observado uma mudança no vírus, que até fevereiro de 2020 havia um predomínio com uma característica molecular, e à medida que sofria mutação, ele ganhava uma capacidade maior de se replicar e de transmissão, em relação a linhagem anterior. Ao longo do tempo, como vírus de RNA ele comete diversos erros sistemáticos de replicação, e essas series de mutações são acumuladas”, disse o pesquisador.

Variações para maior transmissão

Ricardo apresentou como as primeiras variantes, Alfa e Beta, tiveram pouquíssimas variações na proteína Spike, enquanto, a partir da Delta, passa a haver uma mudança. “O vírus passa a ganhar uma vantagem de replicação, através da proteína Spike, e que após essa vantagem ser obtida, ela passa a existir em todas as variantes que vieram depois dela, inclusive a Omicron, que é a variante responsável pelo contexto epidemiológico atual”.

No Brasil, a preocupação com as variantes ganhou uma outra dimensão com a linhagem Gama, em novembro de 2020. E ela seguiu, durante um grande período, como a variação predominante, até a introdução da vacinação, e depois, com a chegada da variante Delta, que possuía um domínio menor, comparada a anterior.

“As novas variantes trazem uma alta capacidade de contagiar pessoas que estejam vacinadas, em comparação as primeiras variantes que surgiram no início da pandemia. Mas, no contexto de duração do vírus no sistema respiratório, ele passa a reduzir de 3 a 5 dias, em pessoas vacinadas, esse fato serviu de evidência para discutir sobre o tempo de isolamento necessário em pessoas com Covid-19”, complementou Ricardo.

Efetividade da vacinação no Brasil

O terceiro convidado foi o pesquisador da Fiocruz Bahia, Manoel Barral, que participa de um programa que estuda a efetividade da vacina do Brasil e que vem acompanhando o panorama da vacinação contra a Covid-19 no país. Antes de apresentar alguns resultados encontrados neste estudo, o pesquisador aponta a diferença entre estudos de eficácia de uma vacina e um estudo de efetividade a longo prazo.

“Existe uma grande importância em monitorar a eficácia da vacina, e esse estudo é realizado em uma sequência de diversas fases. Geralmente, começa com um pequeno grupo de pessoas para verificar se existem efeitos danosos em relação a vacina. Após essa fase, o estudo busca saber se a vacina traz mesmo o estímulo da resposta imune, e posteriormente passa a ser testada em grupos maiores, porém variados, controlados e observados. Havendo uma proteção razoável, no caso da Covid-19 foi estabelecido mais de 50%, ela entra em uso”, explicou Manoel Barral sobre os estudos de eficácia da vacina.

Porém, ele destaca que muitas coisas, tal como a vacina, podem ser eficazes e enfrentar algumas barreiras, como notícias de efeitos adversos, rejeição por parte da população e outros fatores que exigem a necessidade de entender como a proteção se dá no panorama real. Para isso, é realizado o estudo de efetividade da vacina, com uma avaliação muito maior, de basicamente todo mundo que se vacinou. Este estudo busca responder perguntas como: qual o impacto da idade na proteção vacinal? Como a proteção vacinal diminui com o tempo? “Depois, investigamos a mistura de vacinas e demonstramos como era positivo variar os tipos de vacina entre as diferentes doses. E, através desses estudos, descobrimos também como a idade é um fator extremamente importante, pois a proteção que desaparece primeiro é contra a infecção, porque o indivíduo vacinado volta a se infectar, contudo, ele passa a ficar mais protegido dos efeitos graves da doença.

Importância das doses de reforço

De acordo com a apresentação de Manoel Barral, a infecção não é o grande fator de proteção, este seria a proteção contra as formas graves da doença, pois os vacinados diminuem a chance de morte pela Covid-19, e por isso a vacinação deve ser extremamente reforçada. “Nossa cobertura vacinal aqui no Brasil não foi tão boa. Pareceu no início que havia sido, com 85% da população tendo tomado a primeira dose. Mas houve a diminuição das doses posteriores, que cai para cerca de 50%, o que não garante mais uma proteção tão eficaz na atualidade. Então, estamos no caminho de reforçar as campanhas da vacinação. Se não tiver vacinação, não tem proteção”.

Perto de concluir sua apresentação, o pesquisador faz uma importante reflexão: “qual é o problema de a vacina proteger contra a forma grave e não a infecção?”. Ele explica que o vírus continua circulando na população, com o risco de uma nova variante surgir com uma letalidade maior ainda. E caso a população tivesse mantido as medidas de segurança como as máscaras e o distanciamento social, junto a vacinação, seria possível ter diminuído esse risco de surgimento de uma variante tão agressiva com multiplicação viral.

Para encerrar, Manoel Barral faz uma analogia para explicar a importância da proteção adicional. “Seria o mesmo que dizer que o uso do freio no carro passa a ser dispensável porque ele passou a contar com um Air Bag. Você não sobrepõe uma proteção à outra. Elas precisam ser utilizadas em conjunto”. Você pode conferir o evento na íntegra, através deste link.

NewsletterNovidades Cidacs